My Way - Mars - Gun's... Canções que tocam a minha ALMA (seleção csl)

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segunda-feira, 3 de setembro de 2012

O BOM SAMARITANO

(CSL) Nao sou nem um pouco religioso, alias nada, mas tem textos, de pessoas como Rubem Alves, que no minimo devem ser lidos, se seguidos, eh outra historia... ( CSL)

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"O BOM SAMARITANO" OU "O BOM TRAVESTI" - RUBEM ALVES





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E perguntaram a Jesus: "Quem é o meu próximo?" E ele lhes contou a seguinte parábola:

Voltava para sua casa, de madrugada, caminhando por uma rua escura, um garçom que trabalhara até tarde num restaurante. Ia cansado e triste. A vida de garçom é muito dura, trabalha-se muito e ganha-se pouco. Naquela mesma rua dois assaltantes estavam de tocaia, à espera de uma vítima. Vendo o homem assim tão indefeso saltaram sobre ele com armas na mão e disseram: "Vá passando a carteira". O garçom não resistiu. Deu-lhes a carteira. Mas o dinheiro era pouco e por isso, por ter tão pouco dinheiro na carteira, os assaltantes o espancaram brutalmente, deixando-o desacordado no chão.

Às primeiras horas da manhã passava por aquela mesma rua um padre no seu carro, a caminho da igreja onde celebraria a missa. Vendo aquele homem caído, ele se compadeceu, parou o caro, foi até ele e o consolou com palavras religiosas: "Meu irmão, é assim mesmo. Esse mundo é um vale de lágrimas. Mas console-se: Jesus Cristo sofreu mais que você." Ditas estas palavras ele o benzeu com o sinal da cruz e fez-lhe um gesto sacerdotal de absolvição de pecados: "Ego te absolvo..." Levantou-se então, voltou para o carro e guiou para a missa, feliz por ter consolado aquele homem com as palavras da religião.

Passados alguns minutos, passava por aquela mesma rua um pastor evangélico, a caminho da sua igreja, onde iria dirigir uma reunião de oração matutina. Vendo o homem caído, que nesse momento se mexia e gemia, parou o seu carro, desceu, foi até ele e lhe perguntou, baixinho: "Você já tem Cristo no seu coração? Isso que lhe aconteceu foi enviado por Deus! Tudo o que acontece é pela vontade de Deus! Você não vai à igreja. Pois, por meio dessa provação, Deus o está chamando ao arrependimento. Sem Cristo no coração sua alma irá para o inferno. Arrependa-se dos seus pecados. Aceite Cristo como seu salvador e seus problemas serão resolvidos!" O homem gemeu mais uma vez e o pastor interpretou o seu gemido como a aceitação do Cristo no coração. Disse, então, "aleluia!" e voltou para o carro feliz por Deus lhe ter permitido salvar mais uma alma.

Uma hora depois passava por aquela rua um líder espírita que, vendo o homem caído, aproximou-se dele e lhe disse: "Isso que lhe aconteceu não aconteceu por acidente. Nada acontece por acidente. A vida humana é regida pela lei do karma: as dívidas que se contraem numa encarnação têm de ser pagas na outra. Você está pagando por algo que você fez numa encarnação passada. Pode ser, mesmo, que você tenha feito a alguém aquilo que os ladrões lhe fizeram. Mas agora sua dívida está paga. Seja, portanto, agradecido aos ladrões: eles lhe fizeram um bem. Seu espírito está agora livre dessa dívida e você poderá continuar a evoluir." Colocou suas mãos na cabeça do ferido, deu-lhe um passe, levantou-se, voltou para o carro, maravilhado da justiça da lei do karma.

O sol já ia alto quanto por ali passou um travesti, cabelo louro, brincos nas orelhas, pulseiras nos braços, boca pintada de batom. Vendo o homem caído, parou sua motocicleta, foi até ele e sem dizer uma única palavra tomou-o nos seus braços, colocou-o na motocicleta e o levou para o pronto socorro de um hospital, entregando-o aos cuidados médicos. E enquanto os médicos e enfermeiras estavam distraídos, tirou do seu próprio bolso todo o dinheiro que tinha e o colocou no bolso do homem ferido.

Terminada a estória, Jesus se voltou para seus ouvintes. Eles o olhavam com ódio. Jesus os olhou com amor e lhes perguntou: "Quem foi o próximo do homem ferido?"
Rubem Alves


Fonte   http://psicoliberdade.blogspot.com.br/2011/11/o-bom-samaritano-ou-o-bom-travasti.html
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quarta-feira, 1 de agosto de 2012

A Cozinha - Rubem Alves



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A cozinha era o melhor lugar. De manhã, depois do café com leite pão e manteiga,   cada um ia para um lugar diferente. Era a hora da separação. O que era muito bom. À noite todos nos encontrávamos de novo na cozinha, o que era melhor ainda.

O fogão de lenha aceso era um altar. A gente adorava, sem saber. O fogo. A lenha queimava, perfumando o ar com o cheiro das resinas que a madeira chorava através de suas gretas. E de repente voavam fagulhas estalando, pequenos fogos de artifício. O fogo avermelhava os rostos. A prosa era sempre sobre coisas de antigamente que todos já conheciam. “Pai, conta daquela vez que, pra visitar a mamãe,  você atravessou a enchente do rio num tacho do engenho de cana puxado por uma corda...” A conversa era só uma desculpa para estar juntos. A conversa era uma continuação das mãos. As palavras tinham carne.  Na sala de visitas, lugar de cadeiras em ângulo reto, o silêncio criava incômodo. Não podia ser. O vazio era o nada. Silêncio seria falta de educação com as visitas. Mas na cozinha, diante do fogo, o silêncio era bem-vindo. Só contemplar o fogo já bastava. Era um silêncio carnudo, cheio de ser, tranquilo e feliz. O fogo incendiava a imaginação. Um espaço com um fogo aceso é um espaço aconchegante.  As sombras não param. Movem-se ao sabor da dança das chamas. O fogo tranqüiliza a alma, espanta os medos. Faz lugar para os pensamentos vagabundos que não querem nada.

A chapa quente do fogão era lugar para uma cafeteira de ágata. Quando não o café, um chá de folha de laranjeira. Minha amiga Maria Alice, nascida em Mossâmedes, Goiás, viveu a cozinha como eu vivi. Contou-me que quando era mais jovem propunha um negócio a Deus: ela trocaria um ano de sua vida agora por uma única noite na cozinha de sua casa. Toda noite era igual. Ela conta: “A mãe dizia: ‘Vou é lá fora apanhar umas folhas de laranjeira prá fazer um chá pra nós...’  O pai advertia: ‘Mulher, você vai é ficar estuporada. Está com a cara quente do calor do fogo e vai sair na friagem? Vai acabar de boca torta...’  Ela nunca seguiu a advertência do marido e nunca ficou de boca torta.

Sobre o fogo uma panela de ferro coberta com uma tampa de lata de óleo de 18 litros, com brasas em cima. Dentro da panela,  um “bolo de panela”. É  preciso dizer que é “bolo de panela” para diferenciar dos outros, que são de forno. Bolo de panela é bolo de pobre que não tem forno. As brasas na lata são para assar o topo do bolo. De fubá, com pedacinhos de queijo Minas. A tecnologia não era perfeita. Um momento de distração e a brasas queimavam a crosta. Mas esses pedaços queimados eram mais gostosos. A manteiga escorria no bolo quente. A Tofa cuidava do fogo, cuidava do café, cuidava do bolo de panela. Às vezes, ao invés de bolo de panela era pipoca. Podia ser que nos assentássemos à volta da mesa nos bancos compridos e se usasse o tempo para escolher feijão ou debulhar milho de pipoca para o dia seguinte. Nas noites de chuva os pingos das goteiras tocavam música nas panelas espalhadas pelo chão. Meu pai gostava da música das goteiras. Ele dizia que elas o faziam dormir.

 Nas noites de julho, muito frio,  a gente se assentava  à volta de um tacho de cobre cheio de brasas e punha os pés nos pauzinhos dos tamboretes, pra quentar fogo. Apagava-se a luz e os rostos apareciam vermelhos sobre um fundo escuro. Os pintores flamengos gostavam desse jogo de vermelho e negro.

De noite a cozinha era um lugar macio, de ficar quieto, fazendo nada, só gozando... Gozando a dança vermelha das chamas,  o cheiro das resinas, o barulhinho do fogo crepitando,  o gosto bom do café com bolo. Era uma festa para os sentidos tranqüilos. Estávamos livres da compulsão por fazer. Parafraseado Bachelard: “Quer ficar tranquilo? Contemple calmamente a chama de um fogão de lenha que faz o seu trabalho de luz e calor...”

De dia a cozinha era outra coisa. Virava oficina de alquimista, lugar onde se processavam grandes transformações na matéria. O fogo fazia o duro ficar mole: a mandioca, a batata, o arroz, a carne. Fazia o mole ficar duro: o ovo cozido, o pé de moleque, rapadura com amendoim. A rapadura mesma era um líquido que o fogo transformara em sólido. O fogo também fazia ferver  a meleca das goiabas partidas até transformá-las em pastas endurecidas que se guardavam m caixas. O fogo fazia o nojento virar sabão: aquelas muxibas e sebos de carne de vaca, ajuntados debaixo do fogão, misturadas com decoada, tudo derretido junto num tacho de cobre vermelho, virava sabão preto que, depois de pronto, era amassado em bolas do tamanho de duas conchas de mão e  amarrados artisticamente com palha de milho. Decoada faz-se assim: as cinzas do fogão, depois de purificadas de pedacinhos de carvão por meio de uma peneira, eram colocadas dentro de uma lata de óleo grande, não sem antes fazer três furinhos no fundo. A seguir a cinza era pilada até ficar dura como pedra. Colocava-se então a lata sobre três tijolos, debaixo dos furos um pires, e derramava-se água na cinza, cada dia só um pouquinho. A água era filtrada através da cinza e saia no pires como um líquido da cor de café. Esse líquido era a decoada que era misturada à nojeira das muxibas e sebos para produzir o delicado sabão preto, muito bom para a pele. Me disseram que a tal decoada continha potássio. Mas ninguém sabia o que era potássio! Vejam! Eles sabiam sem saber, mais do que nós! Conheciam o poder daquele líquido sem nome científico. Enquanto que nós conhecemos o nome científico mas nada sabemos sobre o seu poder. Eu descobri, numa aldeia histórica nos Estados Unidos, que era assim que os Pilgrim Fathers faziam sabão. Do jeito como a gente fazia, lá em Minas. Fazia o sólido virar gás: a lenha, as cascas de laranja secas, penduradas num varal de arame sobre o fogão: pegavam fogo com fúria!

 Eu me metia na cozinha não por interesses culinários mas por interesses técnicos. O fogo me ajudava a fazer brinquedos. Para colar o papel de seda dos papagaios eu fazia grude, mistura de polvilho com água numa latinha vazia de massa de tomate sobre a chapa, mexendo sempre para não empelotar. Custou-me muitos experimentos para aprender a técnica de fazer grude sem pelotas.  Para fazer furos numa tábua, sem arco de pua, o jeito era aquecer um espeto redondo até ficar em brasa. Aí enfiava-se o espeto incandescente no lugar do furo. A madeira pretejava, soltava fumaça, o espeto entrava até varar.  Peso para linha de pescar se fazia derretendo-se alguns tubos de dentifrício ( esse era o nome da pasta dental...) que eram de chumbo. Como já disse, o fogo tem o poder de transformar o duro em líquido. Aí derramava-se o chumbo derretido num buraquinho cônico feito num canto do rabo do fogão. Antes que o chumbo endurecesse eu enfiava nele uma varetinha fina de uma vassoura de piaçava. Era através do buraco que a varetinha deixava que o fio de pesca iria passar. Fuçador, quebrei a caneta tinteiro do meu irmão Ismael. Tentei colar as partes com o poder do fogo. Colou, mas ficou torta.

Depois de velho, ao me lembrar das minhas experiências científicas com a cozinha, pensei que seria possível montar um programa de química a partir da culinária. Pois a química não se iniciou com a alquimia, que pretendia descobrir os segredo das transformações da matéria? E haverá lugar onde tais transformações são mais visíveis que a cozinha? Descobri, então, que um francês já havia feito isso. Seu nome é Hervé This-Benckhard. Eis o que ele escreveu  no seu livro Les secrets de la casserole: “Cozinhar e fazer experiências químicas partem do mesmo princípio; misturar produtos diferentes e ver qual o resultado.  As substâncias mudam de cor, de aroma, de sabor, de consistência. São duas atividades concretas, enriquecedoras e, ao contrário do que se imagina, nada difíceis” ( “O Estado de São Paulo,1994, 14 de maio, A-18).Mas parece que os professores de química não se entusiasmaram. Acho que eles nunca tiveram as experiências de alquimista que eu tive...


(Correio Popular, Caderno C, 31/07/2005.)

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Minha Educação Sexual - Rubem Alves



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Menino inteligente e de olhos curiosos, decifrei desde muito cedo os mistérios do sexo, a diferença entre os homens e as mulheres. E isso por conta própria, sem que ninguém me contasse. Percebi que homens eram aqueles que usavam calças. Mulheres eram aquelas que usavam saias. Essa conclusão óbvia me bastava. O problema que me atormentava era outro: como saber o sexo dos bichos que nem usam calças e nem usam saias? A única exceção eram os galos e as galinhas, nos quais a diferença sexual está na cara dos galos: os galos têm uma crista vermelha na cabeça e cantam. Se não tem crista vermelha e nem canta, é galinha.

E por falar em crista de galo, lembro-me de que Leonardo da Vinci, no seu livro de culinária, ensina uma receita de cristas de galo assadas, prato muito apreciado na época. Há, entretanto, uma pendência que me deixa angustiado: as cristas eram cortadas dos galos enquanto vivos? Ficavam eles, depois da cruel castração de sua masculinidade, a perambular, humilhados, por entre as galinhas que certamente se riam deles?

Mas os outros bichos que nem usavam calças e saias e nem tinham crista na cabeça, gatos, cachorros, cavalos, bois e vacas, me causavam perplexidade. Estávamos meu pai, minha mãe e eu conversando, numa tarde, quando achei apropriado esclarecer essa questão. Eu deveria ter 4 anos de idade. “Pai, como é que a gente sabe quando é boi e quando é vaca?” Minha mãe convulsionou e soltou um grito fino. “Diano, não! Diano, não!”  Foi o que ela disse. Me lembro bem. Não me lembro de outro grito igual. Meu pai deu uma risadinha sem graça e disse: “É fácil. Os bois têm argolinha no chifre”. Se você não entendeu a explicação do meu pai, digo que eu entendi e passo a explicá-la. Os bois, touros que se tornaram obedientes pela castração, eram usados para puxar carros de bois. Quem dava as ordens era o carreiro que caminhava a pé ao lado do carro com o seu ferrão dotado de um guiso cuja música os bois entendiam muito bem, treinados que tinham sido com técnicas pavlovianas: o simples soar do guiso dizia que lá vinha ferroada. E antes que ela viesse eles obedeciam.  Andando ao lado dos bois havia sempre o perigo de que um deles, provocado por alguma varejeira no focinho, meneasse a cabeça para o lado, atingindo o carreiro com um chifre. Para evitar que isso acontecesse aparafusavam-se argolinhas na ponta dos chifres dos bois e amarravam-se a argolinha do chifre direito do boi da esquerda à argolinha do chifre esquerdo do boi da direita por meio de uma tira de couro. Assim, as cabeças dos bois ficavam impedidas de golpes bruscos que pudessem ferir o carreiro.

Aceitei a explicação do meu pai sem acreditar muito porque o grito de minha mãe me informou que eu estava andando em terreno proibido. Agora, muitos anos transcorrido após o acontecido, meditando psicanaliticamente sobre esse trauma infantil, veio-me a idéia de que o grito de minha mãe era uma reação ante à possibilidade eminente de que o meu pai a despisse na minha frente. Porque se ele dissesse a verdade e me revelasse o segredo da diferença entre bois e vacas eu poderia, por analogia, chegar a conclusões sobre a diferença entre homens e mulheres, e isso era como expô-la nua, aos meus olhos.

O próximo passo na minha educação sexual teve a ver com galos e galinhas. Intrigava-me o costume estranho que tinham os galos de correr atrás das galinhas que fugiam cacarejando esbaforidas até alcançá-las. A seguir subiam nas suas costas num equilíbrio instável, agarrando-se às suas cristas para não cair e baixavam o rabo, ritual que não durava mais que 5 segundos. Dirigi-me novamente ao meu pai. Sabia que seria inútil fazer pergunta tão complicada à minha mãe. Perguntei-lhe das razões por que os galos faziam aquilo. Ele me respondeu que se tratava de uma ação punitiva do galo por alguma coisa errada que a galinha tivesse feito. Fiquei indignado. Revelou-se, então, uma vocação que haveria de me acompanhar pelo resto da minha vida: desde menino fui feminista.  Estou sempre pronto a defender os fracos, tal qual D. Quixote de la Mancha.  Ele, lançando-se de lança em riste contra os moinhos de vento. Eu, atacando os galos a pedradas e vassouradas para que eles soubessem que, enquanto eu estivesse por perto, não permitira aquele seu ato machista e covarde. O fato é que, a partir daquele dia, não dei descanso aos galos.

A lição seguinte ocorreu alguns anos depois. Caminhava com a minha mãe por uma das ruas centrais da cidade de Varginha de um jeito que eu detestava: ela me segurava firme pelo pulso, sem me dar chance de me libertar. Como as mãos dizem coisas diferentes! A mão grande que segura a mão pequena. Como se dissesse: “Estou aqui. Pode confiar em mim. Você pode abrir a sua mão quando quiser”.  É uma mão que segura com ternura. Já a mão grande que segura a criança pelo pulso está dizendo: “Você não tem escolha. Pode abrir a sua mão à vontade. Você continuará preso pela minha mão...”

De repente eu vi uma coisa monstruosa que nunca tinha visto, uma aberração, doença terrível, pobre daquela mulher, com uma barriga imensa da qual se envergonhava, tanto assim que tentava escondê-la debaixo de uma blusa que mais se parecia com uma saia de tão grande. “-Mãe, olha só o barrigão daquela mulher...”  Não cheguei a terminar a frase. Minha mãe apertou o meu pulso com raiva e sem dizer uma única palavra deu-me um safanão. Não entendi nada. Mas aprendi que  não deveria jamais falar sobre mulheres barrigudas. Nunca mais falei.

Estou escrevendo minhas memórias que publicarei como livro. Essa crônica é um dos fragmentos.

Correio Popular, 21 de Agosto de 2005.

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terça-feira, 31 de julho de 2012

O Rei Nu, Será mesmo?



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Texto meu csl

Sabem a diferença de Estória e História? Não?

Bem simples, Estória diziam os eruditos que tratava-se desta forma quando contávamos, narrávamos fatos, eventos que guardavam relaçaõ com algo imaginário, coisas que criamos, a exemplo de um conto de fadas, star wars (ficção), Minority Report (Idealizar o futuro), Estória para frente, fábulas (os três porquinhos), e assim vai, e enfim História ficaria reservado a fatos históricos, situações a exemplo da 1a. guerra mundial, Queda das Torres Gêmeas.

Verdade é que poucas pessoas sabem a diferença, e eu pergunto, faz diferença sabe a diferença? O que muda em nossa vida, ah muda, nos apresentaremos mais cultos se soubermos... humm, quem sabe? Pode ser, pode não ser, as vezes não é muito bom transparecer ser culto ou não... Como dizia Caetano Veloso.

Boa Leitura, o texto é bom, embora eu não dispensaria de forma alguma um Termo Armani.




  
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O Rei Nu

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Hans Christian Andersen foi um dinamarquês que gostava de contar estórias para grandes e pequenos. Todos conhecem a estória do Patinho Feio. Imagino que ele a inventou para consolar um menino feio, sem amigos, motivo de zombaria. Contou também a estória de uma menininha que, numa véspera de Natal, a neve caindo, tentava vender fósforos numa esquina da cidade. Ninguém parava. Ninguém comprava. Todos caminhavam apressados para suas casas onde havia uma lareira acesa, o vinho, a ceia e os presentes os esperavam. Todos queriam celebrar o nascimento de Jesus. É uma estória triste. De manhã a menininha estava morta na calçada, gelada pelo frio. É uma estória bem brasileira: não temos menininhas vendendo fósforos sob a neve que cai mas temos muitas crianças, adolescentes e velhos vendendo balas de goma nos semáforos. Eu também gosto de inventar estórias. E tenho prazer especial em re-contar estórias conhecidas dando-lhes um fim diferente.
Algumas das estórias de Hans Christian Andersen estão cheias de humor e ironia, como aquela do rei vaidoso que gostava de se vestir elegantemente.  Vou recontar esta estória com dois finais: o dele e o meu.
“Havia um rei muito tolo que adorava roupas bonitas. Os tolos, geralmente, gostam de roupas bonitas. Pois esse rei enviava emissários por todo o país com a missão de comprar roupas diferentes. Era o melhor cliente da Daslu. Os seus guarda-roupas estavam entulhados com ternos, sapatos, gravatas de todas as cores e estilos. Eram tantas as suas roupas que ele estava muito triste porque seus emissários já não encontravam novidades.
Dois espertalhões ouviram falar do gosto do rei pelas roupas e  viram nisso uma oportunidade de se enriquecerem às custas da vaidade da Majestade. A vaidade torna bobas as pessoas: elas passam a acreditar nos elogios dos bajuladores... Foi isso que aconteceu com um corvo vaidoso que estava pousado no galho de uma árvore com um queijo na boca: por acreditar nos elogios da raposa ficou sem queijo...
Pois os dois espertalhões-raposa foram até o palácio real e anunciaram-se na portaria, apresentando o seu cartão de visitas: “Doutor Severino e Doutor Valério, especialistas em tecidos mágicos.” 
O rei já havia ouvido falar de tecidos de todos os tipos mas nunca ouvira falar de tecidos mágicos. Ficou curioso. Ordenou que os dois fossem trazidos à sua presença. Diante do rei fizeram uma profunda barretada, tirando seus chapéus.
“Falem-me sobre o tecido mágico”,  ordenou o rei.
Um dos espertalhões, o mais loquaz, se pôs a falar.
“Majestade, diferente de todos os tecidos comuns, o tecido que nós tecemos é mágico porque somente as pessoas inteligentes podem vê-lo. Vestindo um terno feito com esse tecido Vossa Majestade será cercado apenas por pessoas inteligentes, pois somente elas o verão...”
O rei ficou encantado e imediatamente contratou os dois espertalhões, oferecendo-lhes um amplo aposento onde poderiam montar os seus teares e e tecer o tecido que só os inteligentes poderiam ver..

Passados alguns dias o rei mandou chamar o ministro da educação e ordenou-lhe que fosse examinar o tecido.  O ministro dirigiu-se ao aposento onde os tecelões estavam trabalhando.
“Veja, excelência, a beleza do tecido”, disseram eles com a mãos estendidas. O ministro da educação não viu coisa alguma e entrou em pânico. “Meu Deus, eu não vejo o tecido, logo  sou burro...” Resolveu, então, fazer de contas que era inteligente e começou a elogiar o tecido como sendo o mais belo que havia visto.
“Majestade”, relatou o minsitro da educação ao rei, “o tecido é incomparável, maravilhoso. De fato os tecelões são verdadeiras magos!” O rei ficou muito feliz.
Passados mais dois dias ele convocou o ministro da guerra e ordenou-lhe que examinasse o tecido. Aconteceu a mesma coisa. Ele não viu coisa alguma. “ Meu Deus”, ele disse, “ não sou inteligente. O ministro da educação viu e eu não estou vendo...” Resolveu adotar a mesma tática do ministro da educação e fez de contas que estava vendo. O rei ficou muito feliz com a seu relatório. E assim aconteceu com todos os outros ministros. Até que o rei resolveu pessoalmente ver o tecido maravilhoso. Mas, como os ministros, ele não viu coisa alguma porque nada havia para ser visto. Aí ele pensou:  “Os ministros da educação, da guerra, das finanças, da cultura, das comunicações viram. São inteligentes. Mas eu não vejo nada! Sou burro. Não posso deixar que eles saibam da minha burrice porque pode ser que tal conhecimento venha a desestabilizar o meu governo...” O rei, então, entregou-se a elogios entusiasmados ao tecido que não havia.
O cerimonial do palácio determinou então que deveria haver uma grande festa para que todos vissem o rei em suas novas roupas. E todos ficaram sabendo que somente os inteligentes as veriam. A mídia, televisão e jornais, convidaram todos os cidadãos inteligentes a que comparecessem à solenidade.
No Dia da Pátria, a cidade engalanada, bandeiras por todos os lados, bandas de música, as ruas cheias, tocaram os clarins e ouviu-se uma voz pelos alto-falantes:
“Cidadãos do nosso país! Dentro de poucos instantes a sua inteligência será colocada à prova. O rei vai desfilar usando a roupa que só os inteligentes podem ver.”
Canhões dispararam uma salva de seis tiros. Ruflaram os tambores. Abriram-se os portões do palácio e o rei marchou vestido com a sua roupa nova.
Foi aquele oh! de espanto. Todos ficaram maravilhados. Como era linda a roupa do rei! Todos eram inteligentes.
No alto de uma árvore estava encarapitado um menino a quem não haviam explicado as propriedades mágicas da roupa do rei. Ele olhou, não viu roupa nenhuma, viu o rei pelado exibindo sua enorme barriga,  suas nádegas murchas  e  vergonhas dependuradas. Ficou horrorizado e não se conteve. Deu um grito que a multidão inteira ouviu:
“O rei está pelado!”
Foi aquele espanto. Um silêncio profundo. E uma gargalhada mais ruidosa que a salva de artilharia. Todos gritavam enquanto riam: “ O rei está nu, o rei está nu...”
O rei tratou de tapar as vergonhas com as mãos e voltou correndo para dentro do palácio.
Quanto aos espertalhões, já estavam longe e haviam transferido os milhões que haviam ganho para um paraíso fiscal...”
Não foi bem assim que Hans Christian Andersen contou a estória. Eu introduzi uns floreados para torná-la mais atual. Agora vou contar a mesma estória com um fim diferente. Ela é em tudo igual à versão de Andersen, até o momento do grito do menino.
“O rei está pelado!
Foi aquele espanto. Um silêncio profundo. Seguido pelo grito enfurecido da multidão.
Menino louco! Menino burro! Não vê a roupa nova do rei! Está querendo desestabilizar o governo! É  um subversivo, a serviço das elites!”
Com estas palavras agarraram o menino, colocaram-no numa camisa de força  e o internaram num manicômio.
Moral da estória: Em terra de cego quem tem um olho não é rei. É doido.



(Correio Popular, 11/09/2005)







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sexta-feira, 20 de julho de 2012

Rubem Alves, Nelson Rodrigues e Michel Foucault



Michel Foucault

Nelson Rodrigues

Rubem Alves


Texto de autoria de CSL



                             O que tem em comum, as três célebres pessoas acima?

                       Não estão preocupados, se o que dizem, chocará ou não as pessoas, como eu, também não estou, embora eu não seja uma célebre pessoa, mas por conta da liberdade de expressão, posso dizer que, somos livres, pode parecer utópico, mas somos livres, dentro daquilo a que estamos restritos, como por exemplo podemos fazer tudo o que desejamos, desde que não afronte a moral e os bons costumes da sociedade "local" onde vivemos, então que liberdade é essa?

                        Mas e se nos aprofundarmos um pouco, será mesmo que não somos livres, considerando que fazemos parte desta sociedade, e as regras impostas por ela, somos nós que delegamos aos nossos representantes emaná-las, através de normas muitas vezes incompreensíveis, com dúbia interpretação, propositalmente ou não, dependendo dos interesses que se quer atingir?

                        Vamos refletir!

                        Boa sexta-feira!




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